sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Arrivederci Latina, Ciao Altamura

Depois de adiar a viagem em uma semana pelo mal tempo, chegou a hora de encarar. Li que muitas estradas estavam bloqueadas, tracei uma rota mais ao sul e fui.

Saí de Latina embaixo de chuva e foi água o tempo todo. As cidades passavam com a água no para-brisas. Frosinone, Cassino, Caianello, Capua, Caserta, Napoli... depois de mais da metade da viagem de baixo d'água, entrei na Salerno-Reggio Calabria e deu um refresco.

Pura ilusão, depois de um pouco de bonança, quando cheguei perto de Potenza a coisa começou a ficar feia. Parecia que a neve que tava lá longe vinha chegando, chegando e... chegou. No começo só na beira da estrada e de repente não tinha bem uma estrada. O Waze me mandando para estradas vicinais e todas bloqueadas. 

 
Plano original.


A neve estava longe


Aí, chegou.

 O problema era que Altamura era uma cidade na direção de Bari e as estradas na direção de Bari tinham ido para o saco. Parado atrás de uma fila de carros esperando que a estrada fosse desbloqueada, lembrei do  mapa que tinha visto tantas vezes e dei  eia volta e fui na direção de Matera-Taranto. 


Fui mais para o sul, tentando passar.


Me dei bem! Passando por Stigliano, Pisticci, Ferrandina, Matera e ufa, finalmente Altamura. Foi a sorte, soube depois que o tempo piorou muito em Potenza e as estradas continuaram bloqueadas. Me safei de boa.




Cheguei em Altamura muito tarde já escurecendo e não sabia se parava e botava as correntes ou não. Como vi a maioria dos carros sem nada, fui devagar. Quando entrei na casa, não pude deixar de  pensar: "Onde é que eu fui me meter".


Aonde fui me meter?

  

Sezze

Sezze no topo da montanha.

Os pães enormes me chamaram a atenção, mas a história mais ainda. Em um website local, encontrei:


“Alguns séculos antes de Cristo o pão já tinha entrado na cultura rural simples dos habitantes de Sezze. Seus traços são encontrados na obra "O Setina" Caio Titinius (II século AC), que descreveu a vida familiar dos Sezzesi, a responsabilidade se concentra nas mulheres que com cuidado e amor preparam o pão. Dois séculos mais tarde, Gaius Valerius Flaccus dos "argonautas" melhora a qualidade inigualável de mulher Setina, diz ele que elas tem por missão: criar os filhos e embalar o pão. Em mais de dois mil anos de história a arte de fazer pão foi transmitida de mãe para filha.”

Comprovei que ainda hoje elas estão presentes na produção do pão.


O Forno de Onelia


Me chamou a atenção a história de Onelia cujo forno se tornou um dos últimos tradicionais em funcionamento na cidade de Sezze. Embora ela tenha falecido, seu filho Luigi Fusco, continuou a tradição da família e é responsável pelo negócio. Seguindo fielmente as técnicas de sua mãe proferidas por três gerações, diz: "Segredos não tem nenhum, além da qualidade da água, sua temperatura e do estrito respeito às tradições, da grande paixão e do amor que faz do pão Sezze um produto único."
 
No forno de Onelia, encontramos três fornos a lenha e uma equipe preparada e acessível, menos a mulher. Essa, marrenta, tive que conquistar para ela me dizer alguma coisa... no fim deu tudo certo.

Farinha integral especial e os pães "descansando"


Forno sendo preparado.


A turma já encaminhada.


Os pães são realmente enormes.



Parece que em cada forno que eu vou, aparece um "anjo". Alguém que me adota e quer me passar todas as informações possíveis. Dicas, segredos e toda a sorte de conselhos. No forno do Luigi em Frignano foi o Salvatore, aqui o Franco pegou a função de anjo e foi difícil absorver tudo.






Latina. O Retorno

De volta à base, Latina, para continuar a viagem ou, a busca dos pães, porém devido ao mal tempo tive que mudar algumas datas e aproveitei para conhecer pães de cidades vizinhas.

Antes uma participação corrida-caminhada pelas crianças com problemas genéticos. 



Muito legal, foi numa cidade chamada Nettuno. Outra surpresa que vale a pena ser visitada com calma. Balneário fica "grudado" em Anzio. Onde acaba um, começa o outro.


 
 Dizem que não verão nem se caminha de tão lotado, pensei logo em Búzios.


Turma animada.



Bom, carro na mão, uma passeio até a praia e vamos à Sezze ver o pão gigante de lá.










Nápoles.






Além da busca do pão cafone, caminhei muito em Nápoles. Avenidas, ruas, becos. Queria respirar a cidade. Circuito turístico, não turístico; durante vários dias fiz o trajeto de trem Aversa-Napoli, voltava no fim do dia com os trabalhadores, escutando suas conversas, problemas, histórias. Nápoles lembra o meu pai e foi uma maneira de me sentir muito perto dele. O sotaque inconfundível me fazia companhia. Se tudo desse errado nessa viagem só essas idas e vindas tinha feito valer a pena.

Numa dessas caminhadas, esbarrei no passeio Napoli Sotterranea (Nápoles Subterrânea), vale a pena. Muito da história da cidade está ali.



Inclusive com relíquias da Segunda Guerra (atenção Nil, o Eidir que curte essas histórias vai ficar doido).



Loja de parentes, segundo o primo, são várias. Tenho que conhecer essa turma.


Circuito turístico...





e... o não turístico.





terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Peculiaridades Gastronômicas


O Zio cozinha "escondido"


Algumas curiosidades familiares ou não, aconteceram, por exemplo o meu Tio cozinha escondido. Como assim? Seguinte, eu tinha reparado que na casa do meu primo (que mora do lado do pai), sempre aparecia uma comida do nada. Ué, a mulher do primo não cozinha (exceção entre as napolitanas), ele muito menos, os dois estão fora trabalhando o dia todo; logo: quem fez a comida? Resposta: o Zio! O cara mora na parte de cima da casa que é completa e tem uma saída independente, e de lá, sem ninguém ver, traz iguarias de todo tipo. Um dia uma massa ao sugo, noutro um brodo. Ele desce e do nada. Zuumm qual um mágico, apresenta alguma coisa. Detalhe, sozinho. Ninguém entra naquele castelo. Tanto que no dia de 25, domingo, soube que ele ia preparar um cordeiro, pronto. Missão: acompanhar o preparo do bicho.

Depois de muito, não precisa me ajudar e tá tudo bem, consegui invadir o castelo. Caraca, tem de tudo lá dentro. Cebolas e alhos pendurados num canto, salames caem do teto em outro. Parecia o laboratório de um alquimista, só que gastronômico...





... droga, não adiantou muito pois ele tem um monte de especiarias em vidros sem nada escrito. Ele pegava, cheirava e colocava no bicho numa velocidade impressionante. Alguma coisa eu peguei e no processo ele faz um tipo de marinada e deixa lá um tempo. Para o tabuleiro entre outras coisas, colocou batatas, ervilhas, alecrim. Mandou para o forno. Ficou bom para caramba.

A pizza frita da Zia Lina


Para a Vigília de Natal como eles chamam, entre outras iguarias, tem a pizza frita. Eu tinha uma lembrança de ter comido pizza frita em Nápoles a "trocentos" anos, lembrava vagamente do sabor e de que era adocicada. Fui buscar a pizza na casa dela para levar para a casa do meu primo e é claro, comer alguns bocados quentinhos feitos na hora. Vi minha Zia Luisa pegar um pedaço, colocar sal e comer. Uai, não era doce? Pensei. Perguntei e a resposta meio obvia foi. Pode ser doce ou salgada como você preferir. Botei sal e comi uma delícia, no próximo coloquei açúcar. Pronto, tinha 17 anos de novo. Era isso.
Que viagem...


A pizza frita, parece um bife a milanesa.

Alcachofras


No dia de Natal, fui dar um "corridão" para dar uma queimada nas gulodices da noite anterior e quando cheguei na cidade vizinha (Aversa) no melhor estilo Forrest Gump, vi em cada esquina algumas carrocinhas com um burburinho no entorno. Dei uma meia trava para ver do que se tratava. Cachorro-quente? Pipoca? Pastel do Paulista? Alcachofras na grelha. Caraca babei, tenho que comer isso. Na volta, um embrulhinho pra viagem resolveu o problema. cheguei no primo e rapidinho fui provar... humm dos deuses e melhor, esse tipo de alcachofra não tem aquela "palhinha" no meio. 


Alcachofras, o bicho.


Mozarelas, búfalas


A mozarela de búfala italiana é um capitulo a parte. Tudo bem que dizem que o leite de búfala já não é só italiano e vem de outras partes do mundo (inclusive do Brasil). O fato é que aqui é diferente. Não tem comparação, é uma coisa de nham-nham e ponto.
  
Não passo mais de dois dias sem comê-las



Em Latina ao dar uma corrida num parque fora da cidade topei com os(as) búfalos(as).
  
Essa versão affumicata ou, defumada é incrível também.